Testemunha contraria versão de crime em boate e PM será ouvido de novo

Aos policiais, a mulher disse houve uma confusão entre o policial e amigos dela, quando o militar teria sacado a arma e atingido Ithalo

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) quer ouvir, mais uma vez, o segundo-sargento do 20° Batalhão da Polícia Militar (PMDF) Carlos Eduardo Lopes Vidal, acusado de assassinar o jovem Ithalo Matias Gomes, 20 anos, dentro de uma casa noturna do Itapoã. Segundo os investigadores da 6a Delegacia de Polícia (Paranoá), a versão inicial apresentada pelo militar, de que a vítima teria tentado roubar sua arma, não procede e diverge dos demais depoimentos prestados na unidade policial.

Até agora, os investigadores já ouviram oito pessoas, entre elas estão os envolvidos na briga, seguranças da casa noturna e o proprietário do estabelecimento. O indiciamento deve ocorrer só na próxima semana. De acordo com a delegada-chefe da 6ª DP (Paranoá), Jane Klébia, os relatos apresentados até agora são conflitantes. Ela ressalta ainda que a boate onde ocorreu o episódio passou por limpeza.

A história contada pelo segundo-sargento foi desmentida pela primeira testemunha procurada pela PCDF, que seria amante de Carlos Eduardo. Aos policiais, a mulher explicou que se relaciona de maneira extraconjugal com o militar há pelo menos três meses. Ela teria dito que sabia que o PM era casado e tinha filhos.

MUDE DE VEZ DE VIDA

Segundo os investigadores, a testemunha contou que chegou ao local do crime antes do suspeito, na companhia de outros quatro conhecidos. Momentos mais tarde, Carlos Eduardo surgiu acompanhado de dois amigos, um deles agente penitenciário. Quando notou a presença da mulher na boate, o policial teria se aproximado, a abraçado e começado a beijá-la.

Desavisados sobre o relacionamento da mulher com Carlos Eduardo, os amigos da moça teriam acreditado que ele a estava assediando e partiram para cima do PM, dando início à uma confusão generalizada.

Carlos teria sido agredido com um soco no rosto por um dos conhecidos da amante, que precisou ser imobilizado pelo agente penitenciário, amigo do segundo-sargento. Neste momento, após a agressão, o policial teria, então, sacado a arma e disparado. O tiro, no entanto, atingiu Ithalo que, segundo a delegada-chefe da 6a DP, “nada tinha a ver com a briga”.

 

A família de Ithallo Matias Gomes (foto em destaque), 20 anos, acredita que o rapaz morreu porque estava no lugar errado, na hora errada. O rapaz foi assassinado em uma boate do Itapoã, na madrugada desta sexta-feira (28/06-2019), após uma briga generalizada envolvendo o segundo-sargento da PMDF Carlos Eduardo Lopes Vidal. O militar alega que reagiu a um roubo, mas conhecidos da vítima não acreditam nessa versão.

Após ser atingido por um tiro, Ithallo foi levado ao Hospital Regional do Paranoá, mas não resistiu ao ferimento. “Quando cheguei à unidade de saúde, os funcionários disseram que o policial havia se envolvido em uma confusão com outra pessoa. Nós não sabemos ao certo. Ele então teria recebido um murro de outro rapaz e o óculos dele caiu. Nesse momento, o PM sacou a arma para atirar no agressor e o tiro acertou no Ithallo”, acredita o cabeleireiro Pedro Henrique Barbosa Valente, 23, primo da vítima.

Desespero

O rapaz assassinado era natural de Poranga, no Ceará. No DF, trabalhava como mecânico e pintor. Ele não tinha passagem pela polícia. “A arte dele era de dar orgulho. Era muito feliz com o que fazia”, contou Pedro. Nesta manhã, quando a mãe da vítima soube da morte do filho, ela entrou em desespero.

“Ele morou quatro meses na minha casa no início, e sempre o incentivamos a correr atrás de emprego. Ele era um menino excepcional. Batalhador e querido por todos. Também não era de procurar confusão. Ainda é difícil acreditar no que aconteceu”, ressaltou o primo. Pedro disse que estava em casa quando um amigo em comum bateu na porta e comunicou o que havia ocorrido. Prontamente, a família se dirigiu ao hospital.

“Estamos tentando levar o corpo para o Ceará e não temos condições. Está muito difícil”, desabafou o primo de Ithallo. A namorada da vítima, que preferiu não se identificar, comentou que os dois estavam juntos há menos de um mês, mas já faziam planos para o futuro. “Ele era um jovem de valores e sonhos. Desde que começamos a namorar, dizia que iríamos crescer juntos e também pediu para eu tirá-lo da vida de farra. Hoje (sexta), iríamos ao Detran (Departamento de Trânsito) para ele tirar Carteira de Motorista e também faríamos um lanche para ele conhecer meus pais. Eu nem acreditei quando acordei com essa notícia. Estou muito abalada”, relatou.

“As investigações estão muito no início. O PM relatou que foi vítima de roubo, reagiu, disparou contra a vítima, que foi levada ao hospital. Começamos a diligenciar para saber o que de fato havia ocorrido. Fomos ao estabelecimento e estava tudo fechado. Isso é muito preocupante. Desfizeram o local do crime. Tudo foi limpo e não havia vestígios. Precisamos investigar o motivo dessa conduta”, frisou a delegada.

O sargento se apresentou espontaneamente. Foi ouvido e teve a arma apreendida. Argumentou, na ocasião, que reagiu à tentativa de roubo. No entanto, a testemunha-chave do caso, que teria tido envolvimento com o policial, afirma que um mal-entendido teria resultado na confusão. Segundo a jovem, o policial recebeu um soco no rosto, oportunidade em que reagiu dando um tiro que teria acertado Ithallo.

“Vamos ter de confrontar os depoimentos e ouvir outras pessoas para que realmente os fatos se esclareçam, conforme ocorreu. Vamos avaliar e, se confirmar a versão de homicídio, o policial responderá pelo crime”, assinalou a delegada Jane Klébia.

Secret

O local onde aconteceu o crime fica em cima da loja Rocca. Na porta, há uma inscrição intitulada “Secret”. O proprietário da casa noturna confirmou o episódio, inclusive sobre o disparo de arma de fogo. Ressaltou ainda ter pedido para que levassem a vítima a uma unidade de saúde.

Em nota, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) destacou que, “de acordo com as apurações iniciais acerca da ocorrência que envolve o sargento Carlos Eduardo Lopes Vidal, tanto o policial como o proprietário do estabelecimento onde ocorreu o fato alegam que o indivíduo tentou roubar a arma do sargento, que agiu em legítima defesa”. “O policial não está preso. O fato está sendo investigado”, acrescentou a corporação.

Comerciantes da área onde aconteceu o episódio dizem que as festas na boate/bar ocorrem todos os dias da semana. “Regadas a drogas e sexo. A gente não tem paz. Quando chegamos para trabalhar pela manhã, as entradas dos comércios estão cheias de mijo. O cheiro é horrível”, disse um deles, que preferiu não se identificar.

Outra pessoa disse que testemunhou um funcionário da casa noturna colocando a vítima dentro do carro para levá-la ao hospital. “Por volta de 1h. Eles fazem isso para fugir do flagrante. Não ouvimos barulho de tiro, mas foi possível presenciar a confusão logo depois da ação. Algumas pessoas desceram gritando. A música estava muito alta. Eles acabam as festas aqui só por volta das 5h. É um pardieiro. Demorou muito para um crime ocorrer”, frisou.

Um morador da quadra tratou o caso como “tragédia anunciada”. “Faz um ano que isso funciona neste endereço. Já foram registradas outras ocorrências de tráfico e até mesmo de homicídio. Eles dizem que é bar e boate, mas sabemos que vai muito além. Pedimos a interdição do prédio para a Agefis (Agência de Fiscalização do DF), mas a empresa faz vista grossa”, destacou.

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Recomendação do MPDFT

O mais recente caso reacende a polêmica sobre o uso de armas por agentes das forças de segurança local em momentos de lazer. Uma recomendação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) diz que, antes de entrarem em estabelecimentos armados, precisam assinar um termo de responsabilidade.

No documento expedido pelo Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial (NCAP), consta ainda a “expressa proibição do uso de bebida alcoólica nas casas de diversão pública e congêneres, quando tiverem a entrada franqueada em razão do serviço”. Além disso, em outra recomendação, o MP prevê regras mais duras para as chamadas “carteiradas” de servidores da PCDF

 

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