Pandemia: o que protege a Estrutural?

No campo precário, o jogo de bola despreocupado. Uma das regiões mais vulneráveis do DF ainda não tem registros de covid-19

Estrutural ainda está livre do novo coronavírus

Moradores circulam normalmente pela região administrativa e se aglomeram na única lotérica do local

 

Uma das regiões que ainda não foi afetada pela covid-19 no Distrito Federal é a Estrutural. O local resiste aos avanços do novo coronavírus mesmo estando a aproximadamente 15 km do Plano Piloto, localidade mais afetada pela covid-19. É mais uma das grandes desigualdades em comparação com a cidade vizinha, mas, desta vez, em boa medida.

Jornal de Brasília foi até a cidade para acompanhar como está o comportamento da população local com relação às recomendações de isolamento social. Pelo visto, a não incidência de casos na região deixou os moradores mais relaxados quanto às medidas de distanciamento. Em uma das principais ruas da cidade, em frente à feira permanente da Estrutural, a movimentação das pessoas é intensa e constante.

 

Por ser comerciante ambulante e ver todo dia a movimentação das pessoas, Jaqueline Talismana, 32 anos, é quem pode assegurar o fluxo intenso de moradores na avenida. “A única diferença que percebi é que tem menos idosos andando nas ruas, mas não tem nada de diferente, todo mundo continua passando por aqui”, relata. De acordo com a comerciante, ela só permanece no local para garantir o sustento dos seis filhos e da mãe, que está no grupo de risco.

Um dos principais focos de aglomeração na Estrutural é a única casa lotérica da cidade. Quem precisa fazer saques de auxílios e benefícios, ou pagar contas pendentes, enfrenta fila e o desrespeito ao distanciamento social. O espaço entre os usuários do estabelecimento é menos da metade do recomendado, de 1,5 metro. É o caso de Leones Marques, 46, que foi recolher o auxílio emergencial do governo federal na tarde de ontem.

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“Tem dias em que o espaço está maior, mas desde a sexta-feira está difícil”, comenta. Apesar da aglomeração, Leones necessita do recurso para se sustentar nos próximos dias. “Enquanto eu consigo um serviço de três dias capinando um lote, passo outros dez sem conseguir outro. Eu moro sozinho, então vai ser mais tranquilo para controlar o dinheiro”, diz.

Hellen da Silva de Lima, 25, chegou a ir em frente à lotérica na manhã de ontem, mas, segundo ela, a aglomeração estava tão grande que decidiu voltar mais tarde. De máscara e com a filha Melinda Hellen no colo, de 3 anos, também protegida, ela analisa a situação como preocupante. “Achei que estaria menos cheio, mas ainda assim tem muita gente aqui”, opinou. “Não costumo sair, só quando precisa mesmo, daí colocamos essa máscara. Estamos lavando a mão direto e sempre levo um álcool em gel.”

A responsável por alertar os que estão na fila para manterem uma distância segura é Roselene da Silva, 43. Das 8h às 17h30 a funcionária da Lotérica pede a colaboração de todos os clientes do estabelecimento. “A maioria do pessoal se preocupa, mas muita gente não obedece. Peço para afastar, mas não adianta”, conta. Ela relata que recebe reclamações de volta, mas que “tem que ouvir”.

Segundo Roselene, são poucas pessoas que usam máscaras para evitar o contágio ou contagiar quem está por perto. Para a funcionária, ontem foi o dia mais cheio da Lotérica. “Das duas semanas que estou aqui, foi o mais movimentado. Até vamos ultrapassar o horário de fechamento para atender todo mundo”, disse. O local cuida da limpeza com álcool em gel nos balcões e corrimões do estabelecimento.

De acordo com a administração todo o trabalho de conscientização está sendo feito com cartazes e auxílio da Polícia Militar para alertar a população a ficarem dentro de casa. Com relação aos comércios, quem tem feito a fiscalização para mantê-los fechados é o DF Legal que, segundo o órgão, todos os dias vistoria a região.

Nenhum caso em Brazlândia

Mesmo com mais de 53 mil habitantes na cidade, não há confirmação de nenhum morador de Brazlândia contaminado pelo novo coronavírus (covid-19), o que alivia a dona de casa Amélia Ferreira Campos Coimbra, de 55 anos, que vive há anos na região. “Fico muito feliz que não tenham pessoas infectadas pelo novo coronavírus em Brazlândia, no entanto, precisamos ficar espertos e seguir as orientações de proteção da Secretaria de Saúde de qualquer forma. Percebi um aumento muito grande de festas e churrascos na vizinhança depois que foi divulgado na mídia que não tem nenhuma pessoa contaminada na cidade. Também pude observar um alto fluxo de idosos nas ruas. Estou realmente bem preocupada com a situação”, desabafa a mulher.

A atendente de cantina escolar Shirley Caldas*, de 42 anos, concorda com Amélia em relação ao alto fluxo de pessoas nas ruas de Brazlândia. Segundo ela, “apesar de ter tido uma diminuição na circulação de moradores na cidade, muitas pessoas estão desrespeitando as regras de isolamento social. Meus vizinhos continuam fazendo festas e churrascos constantemente, o que me deixa com bastante medo de uma possível contaminação na região. Também reparei que muitos cidadãos não sabem quais recomendações seguir. O presidente da República e o governador do DF, por exemplo, defendem planos estratégicos diferentes para combater à covid-19, então a população fica completamente perdida”, afirmou.

De acordo com a aposentada Simone Martins*, de 63 anos, muitos moradores de Brazlândia não acreditam no impacto de destruição do novo coronavírus e, por conta disso, deixam de seguir as recomendações de combate à covid-19 com seriedade. “As quadras comerciais continuam bastante movimentadas. Tem três pessoas do grupo de risco em minha casa — eu, meu marido (idoso) e meu filho (problema cardíaco) – então estamos evitando sair de casa para não termos problemas no futuro”, complementou.

A estudante de arquitetura Lorenna Ferreira Nogueira, de 21 anos, acredita que não há casos de pessoas contaminadas pelo novo coronavírus em Brazlândia devido à localização afastada de outras cidades. “Essa região é bastante isolada do Plano Piloto e de outras cidades com alto fluxo de pessoas e, além disso, a maioria dos trabalhadores daqui estão em home office ou não estão trabalhando no momento, o que diminui o contato direto entre a população. Além disso, pode-se observar que as cidades com mais casos de contaminação são as mais ricas, como Águas Claras e Plano Piloto. De qualquer forma, tenho medo de alguma pessoa ser infectada e contaminar a população daqui, uma vez que os vizinhos são muito próximos um dos outros e existem poucas opções de mercado, o que pode ser desastroso”, disse.

Paulo Tavares

Paulo Tavares Jornalista redator responsável pelo portal DF em FOCO. Reg, 0010479/DF Meu compromisso é com a verdade. Doa a quem doer...

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