E O CERRADO? O drama da destruição de um bioma invisível

Por Juan Ricthelly

O 11 de Setembro é uma data emblemática, em razão de alguns acontecimentos históricos que coincidentemente ocorreram nesse dia, o mais famoso é o de 2001, com o episódio infeliz do atentado ao World Trade Center nos EUA, o de 1972 é marcante, pois foi quando Augusto Pinochet derrubou o governo de Salvador Allende no Chile, instaurando a ditadura mais sangrenta do Cone Sul, mas o 11 de Setembro de 2019 e dos anos vindouros talvez sejam os mais dramáticos, por ser a data em que se comemora todos os anos o Dia Nacional do Cerrado, um bioma tão importante quanto a Amazônia, mas que pouco se fala.




O Cerrado é a maior região de savana da América do Sul e ocupa uma área de 2.060.000 km², totalizando 24% do território brasileiro, estando totalmente presente nos estados de Goiás, Distrito Federal e Tocantins, e parcialmente nos estados da Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Rondônia, também ocorrendo em área disjuntas nos estados do Amapá, Roraima e Amazonas, sendo uma área maior que o México, a África do Sul e a Colômbia, se o Cerrado fosse um país, seria o 13º maior do mundo em superfície.




Ao contrário da Amazônia que é um bioma plurinacional, o Cerrado é o maior dos biomas totalmente brasileiros, sendo conhecido como a caixa d’água do Brasil, por ser o berço das águas onde milhares de nascentes e rios brotam da terra, sendo um importante armazenador e distribuidor de água para todo o continente por meio das bacias hidrográficas que nascem do seu útero.

É a savana mais rica em biodiversidade do mundo, com uma variedade imensa de ecossistemas que comportam 14 tipos distintos de Cerrado, subdivididos em formações florestais, savânicas e campestres, indo das árvores de grande porte das Matas Ciliares à descampados como os Campos Rupestre, Sujo e Limpo.

É o lar de 12.500 espécies de plantas nativas, das quais 7.300 somente são encontradas aqui, sendo importante mencionar que das espécies arbóreas, somente 180 delas são reproduzíveis em viveiros. Abrigando ainda, mil espécies de peixes e mais de 250 mamíferos, sendo o responsável por 5% da biodiversidade mundial e 30% da biodiversidade brasileira.




Dos biomas brasileiros é o veterano, dizem que sua idade data de aproximadamente 65 milhões de anos, sendo tão velho, que 70% de sua biomassa se encontra no solo, em razão disso, também é chamado de ‘floresta de cabeça pra baixo’, e essa característica peculiar é um dos motivos que dificultam sobremaneira a sua revitalização após o desmate.

Estima-se que 50% do Cerrado já não existe mais, seu ritmo de desmatamento é maior que o da Amazônia, perdendo todos os anos uma média de 9.500 km². Se esse ritmo não for bruscamente interrompido, é possível que entre 40 e 50 anos, o Cerrado e boa parte de sua riqueza hídrica e biodiversidade desapareçam ao ponto de só poderem ser conhecidas em Unidades Conservação e ilhas de vegetação isoladas num ponto ou outro.




Segundo a revista Nature Ecology and Evolution, apenas 3% do Cerrado se encontra protegido por meio de Unidades Conservação, ele não se encontra protegido nem mesmo na Constituição Federal, ao contrário da Amazônia, da Mata Atlântica, da Serra do Mar, do Pantanal Mato-Grossense e da Zona Costeira, embora haja uma Proposta de Emenda à Constituição com o propósito de modificar essa omissão, a PEC 504/2010, que pretende incluir o Cerrado e a Caatinga entre os bens considerados patrimônio nacional.

Com a nobre intenção de pressionar o Congresso Nacional a aprovar essa PEC, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado recolhe assinaturas por meio de uma petição online (https://change.org/PatrimonioNacional) desde 2016 e a entrega das assinaturas será na Câmara dos Deputados no próximo dia 11, o Dia Nacional do Cerrado.

O drama desse importante bioma diz respeito a todos nós que nos preocupamos com o planeta, não se nega a importância da Amazônia, que é um símbolo nacional reconhecido mundialmente, mas é fundamental que despertemos da nossa cegueira diante da tragédia que se apresenta perante de nossos olhos, num momento raro de atenção midiática sobre o tema, o jornal El País fez uma matéria excelente e muito rica sobre o Cerrado no passado, com o título de “Por dentro da destruição secreta da grande savana do Brasil”, que para além dos problemas ambientais, mergulhou fundo nos conflitos sociais e na luta de pessoas que muitas vezes sozinhas e isoladas nos rincões do Brasil, ousam audaciosamente enfrentar os poderosos que tentam de todas às formas avançar impiedosamente sobre o seu território cerratense.




O Cerrado é um bioma onde os superlativos, se perdem diante de sua beleza e singularidade, belíssimo, riquíssimo e lindíssimo, são apenas pobres palavras diante de uma realidade indescritível, que os olhos vêm, o coração sente, a alma acalma e a boca se abre pra dizer algo, mas permanece em silêncio boquiaberta.

Desse modo, é urgente que o movimento ambiental acorde e defenda o Cerrado com a mesma paixão e vigor que fazem em relação aos outros biomas, com destaque para Amazônia e a Mata Atlântica, consideradas às joias de pedra esmeralda da coroa de defesa dos biomas brasileiros.

Nasci no Cerrado, passei boa parte de minha infância brincando entre suas plantas, árvores, arbustos e riachos, cresci vendo o meu pai fazer artesanato com o que o Cerrado gentilmente oferecia e se tornar um artista conhecido nacionalmente em razão desse trabalho, me sinto parte desse bioma e não poucas vezes choro diante da maldade e da ingratidão com a qual ele tem sido tratado.

Assim sendo, digo de peito aberto:
O Cerrado é o meu país! E a minha nacionalidade é cerratense!
Que fique registrado a todos e a todas, que o mundo inteiro saiba, que o Cerrado também existe e resiste!
Que o Brasil não é só Amazônia, é Caatinga, Mata Atlântica e Araucária, Pantanal, Pampas e principalmente Cerrado!
Então, dia 11 de Setembro contamos com a Nação Cerratense para darmos um importante passo na defesa da nossa biodiversidade, das nossas águas e do nosso território.

 

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