Morre o jornalista Ari Cunha, vice-presidente institucional do Correio

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Pioneiro da notícia, Ari Cunha, 91 anos, acompanhou a rotina e lutou por uma capital melhor por 58 anos na coluna Visto, Lido e Ouvido

O jornalista, colunista e vice-presidente institucional do Correio Braziliense Ari Cunha morreu durante a madrugada desta terça-feira (31/7), aos 91 anos. Segundo uma das filhas do jornalista, Circe, Ari Cunha faleceu em casa após sofrer falência múltipla de órgãos devido à idade e às condições de saúde dele. O velório está previsto para a manhã desta quarta-feira (1°/8) e o sepultamento, para às 17h, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.

Pioneiro da notícia, Ari Cunha acompanhou a rotina e lutou por uma capital melhor por 58 anos na coluna Visto, Lido e Ouvido, primeiramente no jornal impresso e depois em um blog na internet. É provavelmente, a coluna mais longeva da imprensa brasileira. Ao longo dos anos, o instrumento serviu para defender, provocar e inspirar moradores e governantes da capital brasileira.

Diretor Comercial do Correio, Paulo César Marques comentou que Ari Cunha foi um profissional de garra, determinado, com muito talento. “Vai fazer falta para nós. Como pessoa, ele foi extraordinário, um contador de ‘causos’, bem-humorado, de bem com a vida. Certamente a família vai sentir muito, e nós sentiremos a ausência do bom companheiro, apaixonado por Brasília, pelo Correio, que tanto nos inspirou.”

Kleber Sampaio, do Sindicato do Comércio Varejista do DF (Sindivarejista), foi vizinho, amigo e ex-colega de trabalho do jornalista. O assessor descreveu Ari Cunha como um homem de visão, que defendia como poucos a obra de Juscelino Kubitschek. “Ele chegava cedo à redação e ia conversar com o chefe de reportagem e com os repórteres. Tinha sensibilidade. Fará falta. Entrou para a história do jornalismo de Brasília. Descanse em paz”, lamentou.

O mesmo pensamento é compartilhado pelo presidente do sindicato, Edson de Castro. “Ele foi um pioneiro nato e de inegável expressão. Um homem respeitado por todos e admirado por muitos. Como jornalista, teve papel ímpar na defesa da liberdade de expressão.”

O presidente da Fecomércio-DF, Adelmir Santana, relembrou a condecoração da federação ao colunista pela história de amor dele com a cidade. Elogiou também a simpatia e o bom trato que Ari Cunha tinha com todos: “Nesses nossos 50 anos de amizade, temos uma relação de cordialidade com sua família e lamentamos profundamente essa perda de Brasília e do Brasil.”

O deputado Rogério Rosso destacou, em nota, que o exemplo de vida de Ari Cunha, o amor por Brasília, a inteligência, a sabedoria, a dedicação à família, aos amigos e ao trabalho se transformam agora em legado. “Nossos sentimentos e condolências aos familiares e amigos, e a certeza que Ari Cunha fica eternizado e será lembrado agora e nas próximas gerações como aquele homem que se dedicou de corpo e alma na construção e consolidação da capital da esperança”, escreveu.

Em julho do ano passado, a diretora de Redação do Correio, Ana Dubeux, fez uma homenagem ao colunista em um artigo que recebeu o título “Ao mestre Ari, com carinho”. A jornalista relembrou características marcantes de Ari, como a risada, o conhecimento sobre Brasília, o amor pelo Nordeste e o jeito como ele tocou um jornal que nasceu com a cidade. “Tudo isso eu tive a sorte de absorver nas longas, produtivas e divertidas conversas. Discutimos também, até sobre machismo, às vezes de forma acalorada, o que só melhorou nossa convivência. Nosso repertório particular soa como trilha sonora de uma amizade leal e cheia de ensinamentos. Levarei sempre comigo”, detalhou.

Pioneiro de Brasília e história viva

Filho de Eva e Raimundo Gomes de Pontes Cunha, José de Arimathéa Gomes Cunha nasceu em 22 de julho de 1927, na cidade cearense de Mondubim. Ele descobriu ainda criança a habilidade para a escrita e a para a notícia. Aos 16 anos, em 1944, foi contratado como revisor da Gazeta de Notícias, de Fortaleza, e, depois, trabalhou no jornal Estado.

A bordo de um navio, deixou a Região Nordeste em 1948 em direção ao Rio de Janeiro, onde começou carreira no Bureau Interestadual de Imprensa e no International News Service. Por muito tempo, escreveu a crônica política para vários jornais representados pelo escritório. Trabalhou com Carlos Lacerda, Joel Silveira, Heráclito Sales, Paula Job, Prudente de Moraes Neto, Etiene Arregui Filho, Irineu Sousa e outros destacados jornalistas da época.

Missão com o Correio Braziliense

A experiência na cobertura também valeu a convivência com políticos de peso, como João Mangabeira, Luiz Viana Filho, Café Filho, José Bonifácio de Andrada, Bias Fortes, Israel Pinheiro, Juscelino Kubitschek. Contratado pela New Press, chefiou a redação em São Paulo durante 10 anos, antes de se transferir para o Última Hora, ao lado de Josimar Moreira de Melo e Samuel Wainer, onde desenvolveu o conhecimento da parte técnica de jornais. Em julho de 1959, passou a fazer parte dos Diários Associados, ajudado pelo amigo Paulo Cabral e contratado por Edilson Cid Varela, gerente do periódico O Jornal. A Ari Cunha foi confiada a reforma da Folha de Goiaz, em Goiânia, onde permaneceu até setembro.

Uma vez na Região Centro-Oeste, a ele foi incumbida a missão de vir a Brasília para estabelecer na nova capital o Correio Braziliense e a TV Brasília. Em 1981, Ari Cunha foi eleito condômino dos Diários Associados. Além da vida intensa na imprensa, ele investiu na vida pública. Em 1961, presidiu a Comissão de Incentivo à Iniciativa Privada, ligada diretamente ao gabinete do então prefeito de Brasília, Paulo de Tarso Santos, ao tempo de Jânio Quadros na Presidência da República.

Entre 1986 e 1987, atuou como vice e presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), durante o governo de José Aparecido de Oliveira. Em 1990, assumiu o cargo de vice-presidente dos Diários Associados, cargo que ocupava até hoje. Do casamento com a professora de enfermagem Maria de Lourdes Lopes Cunha, o jornalista teve quatro filhos: Ari, Eliana, Raimundo e Circe.

Luto oficial de três dias

Em nota, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, lamentou a morte de Ari Cunha e decretou luto oficial de três dias. O líder do Executivo local destacou que a história de Ari Cunha se confunde com a história de Brasília. “Chegou aqui cedo e construiu-se como profissional e ser humano com a própria construção da cidade. Ainda menino, aprendi, com a leitura diária de sua coluna por meu pai, que a política é o caminho para ajudarmos as pessoas”, comentou Rollemberg.

Segundo o governador, o texto contundente, mas elegante do jornalista se tornou obrigatório nas vidas de pioneiros que liam sua coluna em toda edição do Correio Braziliense. “Brasília, Ari Cunha e o jornal confundiram-se com o nosso cotidiano. Quem quiser escrever sobre a história da cidade certamente se inspirará nas suas colunas para refletir, com exatidão, sobre a nossa vida política, econômica e social”, lamentou.

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