Kriptacoin: vítimas são induzidas a desistir de registrar boletim de ocorrência

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Foto: Breno Esaki

 

Vítimas da organização que lesou cerca de 40 mil pessoas com promessa de dinheiro fácil, por meio da Kriptacoin, estão sendo coagidas a não registrar boletim de ocorrência. Pelas redes sociais, pessoas que se identificam como executivos da empresa Wall Street Corporate recomendam, em tom de ameaça, que é melhor “deixar para lá”. Os advogados que defendiam os suspeitos abandonaram a causa após as investigações descobrirem que eles próprios esconderam bens dos suspeitos.

A Todde Advogados anunciou ontem que renunciou à defesa dos diretores e da empresa. Ao Jornal de Brasília, Paulo Roberto Todde não quis explicar a desistência, por “motivos éticos”. Apesar disso, ele afirmou: “A razão básica de uma causa é a plena confiança. Inexistindo essa confiança, extingue-se o contrato”. Os clientes foram informados da decisão na terça-feira, cinco dias após serem presos pela operação da Polícia Civil e do Ministério Público do DF.

A renúncia veio após a descoberta de que Todde fez reuniões com integrantes da organização, intermediou vendas e escondeu uma Lamborghini avaliada em R$ 2 milhões em Anápolis, alvo de mandado de busca e apreensão. Isso pode ser interpretado como obstrução à Justiça.

De acordo com o promotor Paulo Roberto Binicheski, da Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos do Consumidor (Prodecon), o dinheiro dos investidores também foi usado para comprar um avião de R$ 3,6 milhões. O financiamento teve entrada de R$ 1,8 milhão em espécie e cheques de R$ 124 mil.

A aeronave era utilizada semanalmente para viagens de divulgação da Kriptacoin e passou por Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Piauí e Rio de Janeiro. Segundo Binicheski, os advogados concordaram em depositar o valor da entrada em uma conta judicial para restituir investidores.

Há uma semana, no dia da deflagração da operação, Todde afirmou que as 11 prisões foram abusivas e descabidas. “Uma operação show”, classificou. Na época, ele disse que não teve acesso ao inquérito e não sabia a base das denúncias, mas garantiu que “não tem nada que comprove a lavagem de dinheiro, falsificação de documento ou pirâmide financeira”.

Desde a deflagração da Operação Patrick, há uma semana, a Justiça bloqueou contas, apreendeu bens em nomes de arrendatários e descobriu novos elementos da investigação, como contratos de gaveta de compra de bens. Um leilão deve ser feito para ressarcir vítimas.

A expectativa era que o inquérito fosse concluído e o MPDFT oferecesse a denúncia ontem. Mais mandados de busca e apreensão e até de prisão podem ser autorizados pela Justiça. Os presos, que estão na Papuda, devem ser indiciados por lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsificação de documentos e pirâmide financeira.

Envolvidos insistem no negócio

Aplicadores lesados denunciam ameaças e coações por parte de supostos executivos da WS Corporate. “Meu marido é investidor e muitos amigos entraram. Nas redes sociais, estão desestimulando e até ameaçando as pessoas que demonstram interesse em registrar boletim de ocorrência, como orientado pela polícia. Dizem que todos serão prejudicados”, conta uma vítima de 40 anos.

“Já pensou se eles forem inocentados? Vão expulsar todos os que registraram? Não tem nada provado ainda”, tenta convencer um dos suspeitos. Em áudio, supostos representantes da Kriptacoin sugerem que a “insistência” da polícia em registrar boletins de ocorrência seria “medo de a moeda existir”. “A moeda estava ganhando uma proporção tão grande que falaram ‘opa, ou a gente acaba com isso agora ou eles vão acabar com todos’”, afirma um homem que se diz executivo.

A Polícia Civil recomenda que boletins de ocorrência sejam registrados com toda a documentação e provas das transações. Ao longo da semana, o JBr. solicitou a quantidade de fichas abertas desde a deflagração da operação, mas não obteve resposta até o fechamento da matéria. Segundo o delegado Wisllei Salomão, delegado da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor e Fraudes (Corf), as ameaças e coações podem interferir na quantidade de denúncias.

Nos mesmos grupos que eram usados para negociação de compra, venda e troca de moedas digitais, um homem se passa por novo presidente da WS Corporation indicando migração para uma nova versão da Kriptacoin.

“Você deposita R$ 1 mil para a gente e vamos pagar para você R$ 0,10 por cada moeda migrada. É uma excelente oportunidade para reaver o dinheiro”, promete. Os interessados teriam que pagar, inclusive, pelo direito de migrar de plataforma.

Promessa alta com retorno difícil

De acordo com as investigações, o esquema começou a ser articulado no final do ano passado e se consolidou no Distrito Federal em janeiro de 2017, com quase 2.000% de valorização da suposta moeda. A promessa era de dinheiro fácil com uma aplicação que renderia 1% ao dia e outros 10% por cada indicação em um sistema de marketing multinível. A organização garantia que, em seis meses, o lucro chegava a R$ 1 milhão. A compensação era forjada.

Nas redes sociais, os irmãos Welbert Richard Viana Marinho, 37 anos, e Weverton Viana Marinho, 34, apontados como líderes do esquema, persuadiam as vítimas com discurso e ostentando uma vida de luxo, com carros importados, viagens internacionais, joias e relógios caros.

Também estão presos Marcos Kazú Viana Oliveira, Fernando Ewerton, Wellington Junior, Hildegard Melo, Franklin Delano, Thaynara Carvalho, Urandy Oliveira, Sérgio Vieira de Souza e Alessandro Bento.

Dinheiro bloqueado

No início, os aplicadores conseguiam resgatar até R$ 600 por dia. Depois, os responsáveis limitaram para saques semanais. Nos últimos dias, porém, nenhuma retirada estava disponível e, na tentativa de retirar valores altos, empresários alegavam que o sistema tinha sido bloqueado devido a um ataque de hackers.

VERSÃO OFICIAL

Em nota enviada à reportagem, a Todde Advogados & Consultores Associados afirmou que realiza o trabalho “pautado pela ética e profissionalismo, dentro dos limites legais” e que “episódios recentes referentes a clientes atendidos pelo escritório não devem configurar qualquer outra relação que não a de advogado/ cliente, inexistindo qualquer vínculo além do restrito exercício da advocacia”.

A empresa ainda admite que eventos sociais são realizados na sede do escritório, mas “a participação de assessorados juridicamente nesses encontros não deve configurar qualquer outro vínculo se não o profissional”.

Assim, ainda no comunicado, a instituição alega que os fatos foram esclarecidos às autoridades. Agora, sem defender os envolvidos na Operação Patrick, o escritório informa que não se pronunciará sobre a investigação.

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