Escolas do DF lutam contra o bullying e outros tipos de violência

“Todo mundo falava do meu peso, e por conta disso, passei a não me alimentar direito. Em alguns meses, desenvolvi bulimia e fui diagnosticada com anemia.

Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press

Quem hoje vê a alegria no rosto de Anna Karolyna Santos, 16 anos, não imagina que um dia a estudante teve dificuldades para esboçar um simples sorriso. A adolescente, que na roda de amigos é motivo de elogios pelos longos cabelos cacheados, viveu momentos de solidão e foi vítima de piadas e brincadeiras de mau gosto por outros colegas de escola. “Eu deixei de ter amigos e quase não saía de casa. Ficava com medo de fazer qualquer coisa, pois sempre pensava no que os outros falariam de mim. Até hoje, o trauma é muito grande”, admite.

O que aconteceu a Anna Karolyna é uma realidade que ainda assola muitos alunos de escolas públicas do Distrito Federal. O bullying, segundo a Secretaria de Educação, é o principal motivo de desavenças entre os estudantes da capital do país e a violência mais comum no interior das instituições de ensino do DF. “Todo mundo falava do meu peso, e por conta disso, passei a não me alimentar direito. Em alguns meses, desenvolvi bulimia e fui diagnosticada com anemia. Graças ao apoio de pessoas que realmente se importavam comigo, consegui superar o bullying. O que ocorreu a mim, eu não desejo a ninguém”, completa a estudante.
Além de ser preocupante pelos danos psicológicos e psiquiátricos à vítima, o bullying é um perigo por ser um tipo de discriminação que pode evoluir para ocorrências mais graves, como agressões físicas, ameaças de morte ou até atentados a instituições de ensino. Em 18 de março, por exemplo, cinco estudantes do Centro Educacional Gisno, escola pública da 907 Norte, assustaram a comunidade escolar ao anunciarem que fariam um massacre no colégio. Se aproveitando do momento de comoção nacional após a chacina em Suzano (SP), cinco dias antes, eles fizeram “uma brincadeira” para pôr medo a outros alunos e a professores. Como punição, os estudantes foram transferidos de instituição de ensino. Em depoimento à polícia, pelo menos três deles citaram que haviam sofrido bullying.

 “Não vou fazer ao outro aquilo que eu não gostaria que fizessem a mim. O mínimo que podemos fazer é estender um
braço amigo”
Lorrany Cristina 

“A escola é um organismo social que contribui diretamente para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Cada aluno tem um conjunto de particularidades e precisa de atenção. Portanto, o colégio tem que ter clareza quanto ao seu papel de formação e organizar um projeto pedagógico relevante para que os estudantes se sintam motivados à aprendizagem”, alerta o professor do Departamento de Planejamento e Administração da Universidade de Brasília (UnB) Cleyton Hércules Gontijo.
Na visão do especialista, o bullying ocorre devido a relações excessivamente autoritárias no ambiente escolar. Segundo ele, alunos, e mesmo professores, se fazem valer da força ou da opressão para lidar com algumas situações. Isso é prejudicial, e apenas fomenta as relações de violência, diz o professor. “É fundamental a criação de uma consciência de respeito no ambiente escolar. Os direitos precisam ser respeitados. É necessário que haja um processo de socialização em que os alunos reconheçam os seus valores e sintam-se parte daquele ambiente”, analisa.
Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press

Ajuda de todos

Diretor do Centro de Ensino Médio 4 de Ceilândia, Nilson Magalhães conta que o corpo pedagógico do colégio oferece suporte aos alunos da instituição cotidianamente. Por entender que o bullying é um tema recorrente nas escolas públicas, ele orienta aos professores que tratem os cerca de 1,5 mil estudantes do colégio com postura e ética. “Nunca tivemos um histórico de violência, mas todos os dias pedimos que os professores observem, dentro de sala de aula, se existe algum aluno com postura diferente. Caso seja necessário, ele é encaminhado à orientação educacional. Queremos que os alunos vejam na direção uma possibilidade de conversa e sintam-se confortáveis para buscar ajuda”, garante.
Outra medida adotada pela instituição de ensino é a avaliação do comportamento psicológico dos estudantes por meio da análise de desenhos. “Uma professora de sociologia pede aos alunos para que eles expressem seus sonhos e angústias por meio da arte, o que nos permite reconhecer quais estudantes precisam de ajuda. Assim, conseguimos observar as suas condutas com mais cuidado e acompanhá-los junto à família”, comenta.
Os alunos também são instruídos a respeitar as diferenças dos colegas e contribuir para um ambiente mais harmonioso. Lorrany Cristina Azevedo, 17, que assim como Anna Karolyna foi vítima de bullying por conta do peso, é sempre atenciosa com os demais colegas. “Eu sei o quanto uma rede de apoio é importante para superar esse problema. Assim como eu, quem viveu essa experiência não pode deixar que mais estudantes sejam prejudicados. Não vou fazer ao outro aquilo que eu não gostaria que fizessem a mim. O mínimo que podemos fazer é estender um braço amigo”, diz.

“Eu deixei de ter amigos e quase não saía de casa. Ficava com medo de fazer qualquer coisa”
Anna Karolyna

Educação sempre

O Centro Educacional 2, do Cruzeiro, que atende a 1,2 mil estudantes do ensino médio e do ensino de jovens e adultos (EJA), também adota políticas para combater e prevenir o bullying, como seminários, palestras e trabalhos pedagógicos. “Quando o estudante está passando por esse problema, geralmente conseguimos identificar por meio de redações. Geralmente, os alunos expressam o que sentem nos textos. Ao perceber, a direção intervém, seja chamando os responsáveis para conversar e tomar as devidas providências, seja promovendo atividades de conscientização”, conta o vice-diretor da instituição, Wilson Alves.
Segundo Wilson, o trabalho de prevenção é feito desde o primeiro dia de aula. Tanto é que nos corredores da escola é possível notar vários cartazes feitos pelos estudantes com temáticas distintas, como inclusão social, diferença racial e valorização à mulher.
“Trabalhamos com duas percepções: a calma e a mansidão. Acreditamos que todo tipo de conflito é resolvido na base da conversa e tranquilidade, porque não será na agressividade que sanaremos o problema”, explica. “Felizmente, posso dizer que problemas relacionados ao bullying diminuíram em 90% nos últimos seis anos”, acrescenta o vice-diretor.
Editoria de Arte/CB/D.A Press

Agressões

Termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.

Mestres também vivem sob ameaça

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Os alvos da violência, no entanto, não são apenas os estudantes. Os profissionais responsáveis por educar crianças e adolescentes também acabam virando vítimas da fúria de alunos. Professor de matemática e física, Giuliano Rodrigues, 36, é um dos exemplos: em fevereiro deste ano, ele foi agredido com socos, pontapés e golpes por um adolescente de 16 anos que estudava em escola de Ceilândia. “Em 12 anos de profissão, isso nunca havia acontecido comigo. Já fui xingado e ofendido, mas ser agredido fisicamente me pegou de surpresa”, confessa.

A violência aconteceu após o estudante perder o controle em sala de aula. Giuliano tentou intervir, e o adolescente jogou uma bola de papel no rosto do professor. Na sequência, os dois deixaram a sala e Giuliano tentou explicar que o aluno não precisava agir daquela maneira. Não deu certo. “Infelizmente, ele estava sob o efeito de drogas. Pelo menos tive forças para me defender. Isso me deixou bastante chateado, porque o intuito de um professor é levar ensinamento de qualidade aos estudantes. Receber esse tipo de atitude como retorno nos desanima”, lamenta.
Hoje, o aluno agressor não estuda mais na instituição de ensino. Giuliano foi retirado da sala de aula e agora atua como coordenador e supervisor do colégio. Apesar do trauma, ele não perdeu a paixão por educar. “Nós, professores, temos que ser resilientes. Aqui na escola, todos me deram suporte e me motivaram a erguer a cabeça e seguir adiante. Afinal, nós estamos em uma comunidade com uma série de problemas sociais e pessoais. É nossa responsabilidade tentar ajudar os alunos que estão aqui”, garante.
O caso de Giuliano é um triste retrato da violência contra educadores nas salas de aula do DF. A Secretaria de Educação não possui estatísticas de agressões aos profissionais da rede, mas, segundo levantamento do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), feito no ano passado, 57,1% dos docentes foram alvo de atos violentos cometidos por estudantes. Diretora da Secretaria de Saúde do Trabalhador do Sinpro, Gilza Camilo explica que a entidade promove atendimentos psicológicos semanais aos professores.
“Toda quinta-feira, uma psicóloga fica à disposição dos profissionais para ouvir os relatos e tratar da melhor forma. Recebemos diferentes tipos de situação, como ameaça e agressão verbal, tanto do aluno quanto dos pais”, comenta. Segundo ela, cerca de 70% dos afastamentos de docentes são ocasionados por transtornos mentais e psicológicos. “Geralmente isso ocorre em função da violência que o professor sofreu. Então, ele fica com medo de entrar em sala de aula e cria traumas. Por conta disso, são readaptados e trabalham em outras funções pedagógicas, como em bibliotecas ou na administração.”

Sinal de alerta

Psicopedagoga e doutora em psicologia social da Universidade de São Paulo (USP), Luíza Elena Ribeiro explica que a motivação de um ato violento cometido por alunos contra professores tem a ver com a realidade que os adolescentes vivem fora da escola. “É comum eles não terem amadurecimento para lidar com certas situações e demonstrarem comportamentos negativos perante a sociedade. Dessa forma, é importante que haja uma relação entre família e colégio, pois a educação começa em casa e a escola é o local que dará continuidade a essa aprendizagem”, analisa.
Segundo ela, as estatísticas de violência contra educadores são um indício de que a autonomia do profissional tem se perdido na sala de aula, o que pode gerar consequências graves. “Atualmente, existe um grande número de docentes sofrendo com estresse e síndrome do pânico, por exemplo. Chega um ponto em que esses profissionais pedem afastamento e, quando voltam, não aguentam lidar com o ambiente escolar, pois sabem que os transtornos se repetirão.”
O professor de exatas Maycon (nome fictício), 41, é prova disso. Após 17 anos trabalhando em classe, ele pediu para ser retirado de sala de aula devido a experiências negativas que viveu no ambiente escolar. “Eu amava dar aula, sempre foi meu sonho desde a adolescência, mas vi esse desejo se tornar um inferno. Uma vez, pedi para um aluno trocar de lugar, pois ele estava conversando muito, e disse que tiraria os pontos dele, caso não mudasse de lugar. No fim da aula, ele me ameaçou e disse: ‘Isso não vai ficar assim. Depois que você amanhecer com a boca cheia de formiga um dia, não venha me perguntar o porquê.’ Foi aterrorizante”, desabafa.
Maycon passou por sete escolas de três regiões administrativas diferentes. Além de problemas com estudantes, ele foi desrespeitado até por outros professores. O estresse foi tão grande que ele foi diagnosticado com a Síndrome de Burnout — estado físico, emocional e mental de exaustão extrema — e ficou de licença médica por um ano. “Eu não consigo mais conversar direito com ex-alunos. Tenho muito medo. Só de pensar, já me dá palpitações e minha mão gela”, conta. “Os professores precisam ser mais valorizados e menos desprezados. A nossa autonomia tem que ser respeitada”, finaliza.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar

Adblock Detectado

Considere nos apoiar desabilitando o bloqueador de anúncios
Fale com a gente