Eleições: confrontos por conta de candidatos abalam relações familiares

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Aumentaram o número de brigas entre familiares e amigos por divergência de opiniões.

Samanta Mendanha Santos entrou em divergência com a família por causa dos candidatos a presidência, a jovem parou de falar com três primas. Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Ainda não sabemos quem será o futuro presidente do Brasil, mas as eleições deste ano já trouxeram um resultado certo: o aumento de brigas entre familiares e amigos por divergência de opiniões. O “bom dia” do grupo no WhatsApp deu espaço para mensagens que atacam ou enaltecem os políticos. Em alguns casos, teve até quem excluiu e prefere ver os parentes e colegas bem de longe. Mas, afinal, será que é possível separar relacionamento e política?

Não é difícil encontrar pessoas com histórias assim. A engenheira ambiental Isadora Lobão Mori, 27 anos, prefere chamar de “discussões acaloradas”. “Não são brigas, são discussões e comentários, principalmente no Facebook e no WhatsApp”, pondera. Ela conta que a maioria aconteceu com pessoas com quem não tem tanta intimidade. “Conhecidos comentavam minhas postagens de forma ofensiva e sempre rolava uma discussão”, lembra.

Amizade desfeita

Para se blindar dos comentários maldosos, ela preferiu excluir alguns perfis de suas redes sociais. “Essas pessoas de que eu não era amiga eu realmente excluí. Tentei conversar, mostrava reportagens, argumentava, mas quando vi que não tinha conversa, eu preferi excluir”, dispara a engenheira.

Por outro lado, a discussão também acontecia dentro de casa ou com os melhores amigos. “Mas tive que entender que família e amizade são isso: cada um tem seu ponto de vista e, muitas vezes, eles são diferentes. Não vou negar que fica uma chateação, demorou alguns dias para ficar bem, mas sei que não vale a pena perder amizade por conta de política”, pontua.

Isadora lista os assuntos que geraram mais discussão: “questões mais sociais e morais, como homossexualidade, porte de arma e até fake news. “Não foram discussões de propostas. Sinto que neste ano está tudo mais polarizado, as discussões estão mais acaloradas. Acho que nunca tivemos tantos extremos: pobre e rico, Nordeste e Sul”, lamenta.

“Tive que entender que família e amizade são isso: cada um tem seu ponto de vista e, muitas vezes, eles são diferentes. Não vou negar que fica uma chateação. Demorou alguns dias para ficar bem, mas sei que não vale a pena perder amizade por conta de política”, Isadora Lobão, 27 anos, engenheira ambiental. Foto Myke Sena/Jornal de Brasília.
Fim de relacionamentos

Samanta Mendanha dos Santos, 26, desempregada, não tem pudor ao conversar sobre as brigas nas eleições. Ela deixou de falar com ao menos três parentes, além de outros com quem teve a relação afetada. “Sou uma mulher transexual e é complicado ter perto de mim pessoas que apoiam um candidato que é contra a minha existência, a minha identidade, e que pode retirar meus direitos”, argumenta.

Ela se recorda que tudo começou no Natal do ano passado, quando discutiu com uma prima. “Meus familiares começaram declarando o apoio e minimizando os meus receios. Tentei conversar, argumentar, até perceber que não tinha conversa”, pontua.
Em alguns casos, ela disse que a discussão ultrapassava os limites do que era saudável. “Em uma festa de família, fiquei o dia inteiro sentada, tentando convencer uma prima. Mas não tinha diálogo. Aí, optei por cortar a relação”, completa.

Diante de tudo isso, Samanta não nega a tristeza que sente. “Se eu disser que não me afeta, estaria mentindo. Mas, hoje em dia, não me afeta tanto do ponto de vista do ‘perdi um familiar’, mas sim de ‘olha o que estamos passando e o que País está se tornando’”, diz.

No entanto, Samanta afirma que sua opinião não mudaria e faria tudo de novo. “Como eu faria se não tentasse convencê-los, de mostrar como me afeta? Não conseguiria não falar. Tenho a consciência de que eu tentei, tentei mostrar minha realidade, tentei mostrar a realidade de outras pessoas no País. Faria tudo de novo”, conclui.

Núcleo seguro, terreno fértil

Para o psicólogo Igor Barros, os eleitores debatem em grupos de família e de amigos porque estão em um núcleo em que se sentem seguros para partilhar informação. “Ao mesmo tempo, é um meio onde pode explorar assuntos diversos. Então, as pessoas se sentem à vontade para colocar uma opinião de forma até mais incisiva. O problema é que algumas opiniões não são bem vistas porque você conhece a pessoa”, contextualiza.

Em soma a isso, o psicólogo ressalta o momento político que o país vive. “São candidatos completamente diferentes, antagônicos. Se temos um ambiente seguro para expor a opinião e ainda está nesse cenário político, de opiniões antagônicas, é natural o nível de estresse”, avalia. Barros ainda comenta que, por Brasília ser uma cidade com diferentes naturalidades – paulistas, mineiros, nordestinos, sulistas etc – é natural que os núcleos familiares tenham diferentes percepções de política.

Para ele, a recomendação é de manter sempre uma discussão respeitosa. “Tem que saber separar política e relacionamento para evitar um extrapolamento. É natural que algumas pessoas tentem testar os limites de um amigo ou de um parente para saber qual o grau de conhecimento e envolvimento com determinado partido. Se for conversarem, tem que colocar a opinião de maneira mais respeitosa. Se não, perde a opinião própria e começa a incentivar a imposição”, esclarece.

Ponto de Vista

Para a antropóloga e socióloga da Universidade de Brasília (UnB) Mariza Veloso, as brigas familiares e entre amigos são exemplos que contrariam o próprio significado de política.

“Política é a arte da negociação, da discussão sobre interesses públicos, da coletividade. É conversar para chegar a uma decisão. Tudo isso contraria a própria política”, destaca. Ela define esse momento político como “a idade média da política” ou “o obscurantismo sem o alento da inteligência”.

A professora acredita ainda que esse antagonismo surgiu dos próprios problemas sociais ligados à segurança pública. “Toda essa discussão no Brasil se deve a uma situação lamentável da violência, de problemas de segurança. Houve uma degradação no País nesses aspectos. Mas estamos tentando sair da violência com mais violência e acho que não será por esse caminho”, pondera.

Por isso, Mariza indica que, acima de tudo, é preciso manter o respeito nas conversas e debates, seja entre amigos, familiares, colegas de trabalho ou desconhecidos. “Se é difícil conversar, o que é lamentável, vamos ficar em silêncio para manter o respeito”, comenta.

“Espero que as pessoas tenham bom senso, não briguem, conversem, reflitam e escutem umas às outras. Cada um tem direito de ter opinião e voto. Temos de preservar a democracia mesmo quando não nos agrada”, defende.

Via jornal de brasília

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