Colunista Daniela Rezende: A Lição

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A Lição…De Eugéne Ionesco

A peça teatral chamada A Lição, drama cômico escrita pelo dramaturgo Romeno Eugéne Ionesco, foi escrita em 1949 no cenário teatral do pós guerra, nesse livro, com tradução de Paulo Neves em 2004, relata que a peça foi representada pela primeira vez em Paris em fevereiro de 1951. A obra faz parte do gênero de teatro do absurdo, gênero antiteatro que trata de um teatro extremamente arrebatador, misturando o banal cotidiano frenético, com situações estranhas, absurdas e completamente inusitadas, escreveu assim como Samuel Beckett,  dramaturgo Irlandes, que viveu grande parte de sua vida em Paris.

“O teatro do absurdo de Eugene Ionesco é absurdo, irracional e ilógico, mais jamais gratuito.”  (Decio de Almeida Prado) Seu teatro desperta questionamentos sobre a incomunicabilidade do ser humano e o fascismo  destruidor da sociedade moderna. A peça conta a historia de um professor autoritário, sociopata, enganador, psicopata, que mata suas alunas por ser contrariado, quando elas não corresponderem as suas lições.

Tudo começa com a vontade de uma jovem de apenas 18 anos ter lições particulares,  diz ter feito já dois bacharelados um em ciências e outro em letras e está se preparando para o doutorado total. Esse professor é visto pela sociedade como um padre, um espécie de guru, aquele que detém todo o conhecimento, capaz de transformar uma adolescente em doutora, quando suas aulas são ensinadas de forma autoritária, capaz de ignorar o estado emocional e de saúde de sua aluna, que se queixava de dor de dentes do meio da peça até o final. O professor irritadíssimo vai ao extremo com sua aluna, até matá-la com  várias facadas porque ela não conseguia entender as lições tanto por conta da dor de dentes, como por conta do próprio entendimento das matérias a serem ensinadas pelo professor.

Atualmente, o professor da peça de Ionesco tem algumas características parecidas com os professores de hoje, ele persiste em ensinar errado, logicamente sabe-se que o professor também pode errar, mas persistir no erro é uma atitude irresponsável e nociva aos alunos e a sociedade. Ele também é extremamente técnico e não consegue entrar no universo da aluna, inicia suas lições com matemática, sendo uma das matérias mais difíceis para ela aprender, pois o professor percebendo a sua dificuldade não muda sua estratégia. Será uma mera coincidência?

Para a aluna que por sua vez não consegue subtrair as contas, só consegue somar, confessa decorar todos as resoluções possíveis de aritmética por não compreender a matéria, coisa que acontece com muitos alunos que não tem  compreensão da disciplina ensinada pelo professor, ou por falta de pré-requisitos ou reflexo de um péssimo ensino dado pelo mesmo.

A empregada, outra personagem da peça, entra em cen  advertindo o professor para que ele não se estresse, coisa que o levaria ao pior, ensinando primeiro aritmética e depois filologia, que é a disciplina que trata do estudo das linguagens e seus significados. A aluna começa a sentir dor de dentes, o professor ignora a dor da aluna, essa dor pode ser entendida como incômodo de não conseguir processar as lições do professor e que vai piorando cada vez mais, e a jovem não consegue prestar mais atenção ao que o professor fala. Tudo que é transmitido é em vão, e o professor? Ele não se importa, pois o mais importante é transmitir conhecimento.

 

O professor fala coisas sem nexo, começa muito tímido, com voz aguda meio doente, e progressivamente apresenta uma voz cada vez mais forte, alta e firme. Não deixa a aluna interromper nada em sua fala e nem fazer nenhum comentário, enfim, ele não para de falar. Ele vai ficando violento com a aluna porque ela não responde mais aos questionamentos, tenta reagir,  mas vai perdendo a força  até ficar paralisada.

 

Ionésco discute na fala do professor sobre a língua espanhola,  como se ela fosse a raiz de todas as outras  línguas, esquecendo-se do mandarim e do latim, que formam a base dos idiomas. Ele indaga: Como se explica que, falando sem saber que língua falam, ou mesmo acreditando falarem outra, ainda sim as pessoas do povo entendem entre si? Dessa vez Ionésco provoca uma reflexão, pois o poder da língua de um povo pode manipulá-la, quando transmitida e ensinada de forma mecânica, sem se ater sobre sua história e significado. Fato que deve ser analisado na formação de professores, para que a conscientização da língua seja de fato concretizada.

 

No clímax da peça o professor mata a aluna com facadas. É um doente social, a empregada  entra em cena e fala com naturalidade que é a quadragésima vez que mata alunas, que vai ficar desempregado, e não terá mais como dar aulas e ele se arrepende como de costume, justifica a morte da jovem porque ela não queria aprender. A empregada volta a entrar em cena argumentando que a  aritmética leva a filologia e a filologia leva ao crime, por sua vez o professor não sabia o que era o pior, a filologia, da qual Maria a empregada falava, pois ele justificou suas mortes com esse argumento. Como sempre, a mesma velha falha, a falta de preparação levou o assassinato. O assassinato do ensino, da escola, dos sonhos de jovens e das mulheres.

 

Ionesco coloca outro fato em foco: a empregada namora o padre, é a questão da igreja sendo a amante de um ensino muitas vezes cego e sem fundamento, pois o padre sabe das mortes, as encomenda e não denuncia, ou seja: a igreja por muito tempo foi detentora do conhecimento e acobertou muitos crimes com relação a educação,  mas Maria (a empregada)  acrescenta que a opinião pública julga não precisar de um padre pra encomendar as almas das alunas mortas, pois o professor  é visto como ele, um guru, um bruxo,  tanto que a aluna fica enfeitiçada, perde a própria opinião, se mostra uma marionete fácil de manipular.

Outro fato interessante na peça é que a empregada dá ao professor uma braçadeira nazista (uma argola que se coloca no braço) e diz que é política, ato capaz de abrandar a sensação de ser um assassinato em vão. E o pior, o professor não queria encomendar a coroa de flores porque a aluna não pagou a lição. Ele assim enterra suas vítimas no quintal , toca a campanhia, ele atende a próxima jovem, coincidência ou não, também é uma senhorita.

Ato único, em 54 páginas, o autor consegue explorar o fascismo com que professores, formadores de opinião apresentam, denotando a autoridade dada ao ensino sendo ele responsável por salvar vidas ou mata-las, matar sonhos, matar a vontade de aprender, violentar a sociedade de forma cruel, assim como foi o nazismo para a Alemanha. Também ressalta a condição da mulher, que por muito tempo ficou a margem da sociedade, renegada e esquecida de seu empoderamento, figurando como um objeto, vazio e pronto pra se encher de qualquer coisa imposta pela sociedade.

A questão da incomunicabilidade também é bastante discutida na peça, a informação não se processa quando há tabus, quando o desconexo não é entendido, quando a desconstrução é vista de forma  banal e gratuita, não, Ionesco em seu teatro absurdo, absurdo por ser uma ruptura com paradigmas estruturais teatrais, que enfatizam a própria desconstrução da linguagem, questiona a fala, a língua, a comunicação, a transmissão da informação, seus veículos e detentores de poder, retrata a indignação da relação social com que estudantes e trabalhadores ficam apáticos perante a autoridade da informação.

A falta de descontentamento das classes, principalmente a mais pobre, cega consciências, não resiste aos ataques de um governo impopular, quando cerca de 90% da população rejeita o governante de um país que foi colocado no poder por falta de forças no parlamento brasileiro. A peça A Lição nos dá a lição que precisa ser ensinada para o povo, nesse momento de apatia e paralisia dos meios de controle do Estado, só basta o quadro figurado de Ionesco e seu giz inexistente das instituições, para ressuscitar corpos e mentes assassinados pelo poder, existente e resistente no país que em termos de  mente  e coração é a pátria da humanidade.

Por Daniela Rezende

Atriz e arte educadora , bacharel em Artes Cênicas, UnB.

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