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Planaltina e Sobradinho são as regiões mais críticas do DF, diz Caesb

Em outubro, volume do principal córrego diminuiu e gerou seis dias sem água; cooperativa de Planaltina calcula que produção caiu pela metade. Caesb estuda medidas para ‘aliviar’ bacia.

Por Letícia Carvalho, G1 DF

Série do G1 mostra os impactos de um ano de racionamento de água no DF (Foto: Jéssica Almeida/G1)

“Um lugar de muita riqueza, próximo a um lago.” Para o padroeiro de Brasília, Dom Bosco, essa seria a definição do lugar localizado entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério Sul. No espaço, criou-se um monumento – a Pedra Fundamental –, e desenvolveu-se a 9 quilômetros dali a região administrativa de Planaltina. Apesar da premonição do religioso, a região tem sofrido, ano após ano, com a falta de um recurso precioso: a água.

Em outubro de 2017, Planaltina viu um dos seu principais córregos e fonte de abastecimento, o “Pipiripau”, amargar com a escassez de água. Os 179 mil moradores da região foram pegos de surpresa e tiveram que enfrentar longos períodos sem o recurso.

Alguns bairros chegaram a ficar seis dias com as torneiras secas no período em que a capital registrou a maior temperatura da história, 37,3°C. Uma de suas vizinhas, Sobradinho, que tem 142.449 mil habitantes, também padeceu do mesmo problema no ano passado.

 Córrego do Pipiripau, principal fonte de abastecimento de água das regiões de Planaltina e Sobradinho, no Distrito Federal (Foto: Letícia Carvalho/G1)

Diferentemente das outras regiões administrativas abastecidas pelos reservatórios do Descoberto e de Santa Maria, Planaltina e Sobradinho dependem exclusivamente dos córregos – Pipiripau, Mestre D’Armas, Quinze, Corguinho, Brejinho, Paranoázinho e Fumal – para terem água nos canos dos imóveis.

Assim como esses locais, Brazlândia também necessita do volume dos rios para prover água aos seus 46.302 mil moradores. Nesse caso, os responsáveis pelo fornecimento são o Barrocão e Capão da Onça.

Ao G1, o presidente da Companhia de Saneamento do Distrito Federal (Caesb), Maurício Luduvice, reconheceu que a área mais ameaçada pela falta de água é a que abriga Planaltina e Sobradinho.

“A área mais crítica em termo de disponibilidade hídrica no Distrito Federal, no nosso pequeno quadradinho, é a região nordeste, exatamente Sobradinho e Planaltina.”

O especialista em recursos hídricos Oscar Cordeiro Netto corroborou o posicionamento do presidente da Caesb:

“A situação é complicada em Planaltina e em Sobradinho, porque não têm reservatório. Se tiver um período de estiagem muito grande, vão padecer com racionamento.”

 

Captação de água da Caesb no córrego do Pipiripau, em Planaltina, no Distrito Federal (Foto: Letícia Carvalho/G1)

Embora a companhia confirme que Planaltina e Sobradinho sejam locais críticos, as duas regiões e Brazlândia não foram submetidas ao racionamento – imposto aos moradores das áreas que recebem água das barragens do Descoberto e de Santa Maria desde o início de 2017.

Mas, no auge da seca que atingiu o DF no ano passado, a população chegou a desembolsar até R$ 100 por um galão de água porque a Caesb interrompeu o fornecimento para recuperar a capacidade dos córregos.

 

Moradores de Planaltina ficaram seis dias sem água; região registrou recorde de temperatura da história do DF (Foto: Tony Winston/Agência Brasília )

A balconista Rejanne de Jesus, de 42 anos, mora na Vila Buritis – um dos bairros de Planaltina –, e ficou sem água em casa por cinco dias consecutivos em outubro.

“A reserva da nossa caixa d’água acabou em uma sexta-feira. No domingo, tentamos comprar água, mas até os depósitos estavam sem. Liguei em um local e queriam cobrar R$ 45 pelo galão vazio e R$ 25 só para enchê-lo. Na Estância, tem gente vendendo por R$ 100”, contou Rejanne de Jesus.

 

Tradicional clube de Planaltina, o Cachoeirinha do Pipiripau usa água do córrego para alimentar piscina do local (Foto: Letícia Carvalho/G1)

Tradicional clube de Planaltina, o ‘Cachoeirinha do Pipiripau’ também “sofreu” no período da escassez de água. O espaço, que fica a poucos quilômetros de distância da captação da Caesb, precisou fechar a piscina em outubro e novembro do ano passado.

“Nunca tínhamos visto isso. O rio ficou praticamente seco e tivemos que fechar a piscina”, disse o estudante José Genaro, filho do dono do local.

Agricultura

Produtores agrícolas também calcularam prejuízos. Responsável pelo comando da Cooperativa Agrícola da Região de Planaltina (Cootaquara), Maurício Severino de Rezende disse que nunca tinha passado por um período com “tão pouca água” e “tantas restrições” como em 2017.

“Produzimos cerca de 400 toneladas de hortaliças, legumes e verduras por mês. Em outubro, foram 253 toneladas e, em novembro, 240 toneladas.”

 

Produção de pimentão em chácara do núcleo rural Taquara, em Planaltina, no Distrito Federal (Foto: Letícia Carvalho/G1)

Com mais de 300 cooperados, a organização abastece grandes redes de mercado do DF. Segundo Rezende, durante os meses da seca, houve momentos em que a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento (Adasa) restringiu a irrigação das 18h às 6h. O núcleo rural Taquara também depende da água do córrego Pipiripau.

“Neste ano, a gente vai se programar pensando no mesmo cenário de 2017. Vamos tentar evitar, ao máximo, o que aconteceu com a nossa colheita no ano passado”, diz Rezende.

Em nota, a Adasa apontou que foram aprovadas e implementadas, na medida em que a seca se intensificou, diversas restrições. Entre elas, estava a redução do horário de captação dos irrigantes de forma que não concorresse com a captação da Caesb. Atualmente, “as restrições estão suspensas, pois a bacia responde bem aos níveis de chuva”.

 

Funcionários da Cooperativa Agrícola da Região de Planaltina (Cootaquara), em Planaltina, no DF, limpam pimentões colhidos pelos agricultores da região (Foto: Letícia Carvalho/G1)

A captação de água no Pipiripau, normalmente, é de 250 litros por segundo. Na época da seca, principalmente em outubro, a retirada caiu para 125 litros por segundo. “Houve um uso intenso da água na bacia. Com as ações da Adasa, na gestão do Piripipau, voltamos a captar 250 litros por segundo. Esse aumento de vazão permitiu a regularização dos abastecimentos”, explicou o presidente da Caesb, Maurício Luduvice.

“Ali, a gente tem uma competição com a agricultura irrigada. Então, é importante que sejam feitas ações no Pipiripau. A outorga da Adasa nos permite retirar 400 litros por segundo do córrego. Hoje, a gente não consegue captar 280, 300”, disse.

A normalização do fornecimento de água ocorreu após o fechamento do canal Santos Dumont, que retira água do córrego Pipiripau para a irrigação de agricultores. Com a medida, o abastecimento de Mestre D’Armas e Vale do Amanhecer – bairros de Planaltina – e de Sobradinho I e II foi retomado.

O subsecretario de Abastecimento e Desenvolvimento rural da Secretaria de Agricultura, Francisco Hercilio da Costa Matos, acrescentou que, na região do Santos Dumont, foram construídos tanques para evitar a perda de água por infiltração. Além disso, a pasta conseguiu um investimento de R$ 10 milhões para canalizar todo o canal do Santos Dumont.

“Estamos tratando ali de um conflito de interesses. A preferência é para o abastecimento público, mas, por outro lado, temos o abastecimento da agricultura, da produção agrícola.”

 

Detalhe dos pimentões produzidos por agricultores da Cooperativa Agrícola da Região de Planaltina (Cootaquara), no Distrito Federal (Foto: Letícia Carvalho/G1)

Matos disse ainda que o Programa Produtor de Água na bacia do Pipiripau, que remunera produtores rurais por seus serviços ambientais, foi prorrogado pelos próximos cinco anos.

A iniciativa tem como objetivo o controle da poluição em bacias de importância estratégica. As metas são reduzir a erosão, melhorar a quantidade e a qualidade da água e regular o regime hidrológico dos rios, por meio do plantio de vegetação nas nascentes.

Com recursos do projeto, foi revitalizado um viveiro público. Ao todo, foram produzidas 350 mil mudas de plantas nativas.

 

Córrego do Pipiripau, em Planaltina, no Distrito Federal (Foto: Letícia Carvalho/G1)

Sem previsão de racionamento

Mesmo com esse cenário, a companhia informou que, no momento, não há previsão de rodízio para essas áreas. No entanto, o órgão disse que “se houver necessidade, será implantado e a população avisada com antecedência”.

Durante a seca que atingiu o Distrito Federal, os níveis dos principais córregos ficaram tão baixos que as bombas não conseguiram captar a água. Como a captação nessas regiões é feita diretamente nos cursos dos rios, vai faltar água sempre que os níveis dos córregos ficarem abaixo das bombas.

 

Tanques que armazenam água captada no córrego do Pipiripau, em Planaltina, no Distrito Federal (Foto: Letícia Carvalho/G1)

Na prática, de acordo com a Caesb, não é possível prever quando os moradores vão ficar sem abastecimento. Também não há projetos para a construção de reservatório na região. A recomendação é adquirir uma caixa d’água.

Soluções

Para tentar minimizar os impactos da seca na área, a Caesb analisa bombear água da estação emergencial do Lago Paranoá até algumas áreas de Sobradinho II.

“Estamos estudando levar parte da água que a gente capta no [Lago] Paranoá, por exemplo, para abastecer algumas regiões de Sobradinho e, com isso, aliviar o Pipiripau.”

 

Tubulação usada para captar água do Lago Paranoá (Foto: TV Globo/Reprodução)

Na última segunda-feira (15), a companhia inaugurou um sistema que permite bombear água do Lago Paranoá até a estação de tratamento do Plano Piloto. Na prática, isso faz com que a água do lago – que era distribuída apenas para Lago Norte, Varjão, Paranoá e parte de Sobradinho – também vá para a Asa Sul, Asa Norte, Noroeste e Sudoeste.

G1

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